
Pesquisa do Rede em Jogo revela que 84% dos operadores de apostas recomendados pelo Instagram no Brasil são ilegais, com base em análise de mais de 55 mil contas. O mercado não regulado representa 38% a 44% da atividade online no primeiro semestre de 2026. Algoritmos ampliam o alcance de marcas não autorizadas, desafiando a canalização regulada.
SCCG Take — Operadores licenciados enfrentam concorrência desleal via recomendações orgânicas. A SPA precisa priorizar parcerias com plataformas para verificar licenças nos algoritmos e reforçar o mercado regulado.
Uma pesquisa sobre o ecossistema de apostas nas redes sociais no Brasil revelou que 84% dos operadores de apostas mais recomendados pelo Instagram não possuem autorização para atuar legalmente no país. O projeto Rede em Jogo, desenvolvido pelo CondadoLab da PUC-Rio, analisou mais de 55.000 contas e cruzou os resultados com a lista oficial de operadores autorizados pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), conforme reportado pela Zona de Azar.
A exposição a conteúdo de apostas pode começar após seguir apenas uma conta relacionada ao tema. O algoritmo do Instagram passa a sugerir perfis conectados, incluindo operadores, cassinos online, influenciadores, tipsters, criadores de conteúdo e páginas especializadas. Esse processo direciona gradualmente os usuários a um ambiente onde predominam marcas não autorizadas.
Os 100 perfis mais recomendados reúnem mais de 6 milhões de seguidores e aproximadamente 114.000 postagens. Entre os operadores de apostas que surgem com maior frequência nas recomendações, 84% não detêm autorização da SPA, embora alguns possuam licenças em jurisdições estrangeiras sem validade para o público brasileiro.
O conteúdo analisado costuma apresentar as apostas como investimento, emprego, atividade profissional ou alternativa ao trabalho convencional, o que contraria a abordagem regulatória brasileira segundo a qual apostas não são investimento. Criadores utilizam o Instagram como porta de entrada para grupos pagos no Telegram, comercializando dicas, sinais, grupos VIP, odds aprimoradas e estratégias de cassino.
O fenômeno “Tigrinho” aparece com frequência, com publicações que ensinam supostos padrões visuais ou sequências para prever pagamentos maiores em jogos de cassino, gerando a falsa impressão de que é possível prever resultados de jogos de azar. Operadores não autorizados empregam humor, vídeos virais, promoções, odds esportivas, material gerado por IA e imagens de prêmios para adquirir clientes e construir reconhecimento de marca.
Estimativas publicadas em 2026 indicam que operadores ilegais responderam por 38% a 44% da atividade de apostas online no primeiro semestre. A SPA intensifica a fiscalização em parceria com a Polícia Federal, empresas de pagamento, plataformas digitais e autoridades judiciais. Uma operação investigou rede que usava influenciadores para promover sites ilegais, com medidas judiciais de bloqueio de ativos que podem alcançar R$ 951,1 milhões.
As descobertas ampliam o debate sobre o papel dos sistemas de recomendação automatizada, que aumentam a visibilidade de contas não autorizadas muito além de seu público orgânico. Isso compromete os esforços de canalização ao mercado regulado e cria desvantagem competitiva para operadores licenciados, que arcam com custos de tributos, KYC e jogo responsável. O relatório deve elevar a pressão por cooperação entre a SPA e plataformas como o Instagram, com possível exigência de verificação de licenças nos algoritmos.
Reporting: Zona de Azar
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